terça-feira, 18 de outubro de 2011

O dia em que escrevi para a minha filha

Hoje é a primeira vez, nesses anos de nossa existência conjunta, que escrevo para você. Uma coisa que eu achava que faria a todo momento quando estava a sua espera. "Sou jornalista, vou escrever muitas coisas para ela. Vou registrar fatos importantes do mundo, detalhes da vida, as faces do tempo com o meu olhar ...". Besteira.
O que faço é registrar você a cada segundo, com um amor incalculável, com uma paixão daquelas ansiosas para ver o tempo te transformar em uma grande pessoa e, ao mesmo passo, pedindo para que demore mais um pouquinho para o tempo passar e ver mundo te colocar longe do escopo de minhas asas.
Pois bem, hoje me veio infinita vontade de escrever algo que quero te dizer sempre, mas que eu imagino que, por vezes, não terei as palavras, a linguagem ou os atos exatamente ideais para que você entenda. E, também, algo que hoje, com apenas três aninhos, você não entenderia da maneira com que vou dizer. Então, por tudo isso (ou por pura frescura de uma mãe de coração mole e ideais firmes) é que escrevo isto hoje. Afinal, esse mundo tão efêmero dos códigos digitalizados nos dá, também, uma impressão de perpetuação, de dados que ficarão em nuvens e sempre, sempre estarão lá.
Bom, só queria deixar assim, registrado, para que no momento oportuno eu possa te mostrar ou, na pior das hipóteses, que você consiga, sozinha, buscar e achar. Digo-lhe. O que eu mais desejo a você é aquilo que qualquer mãe deseja a sua cria. Que sejas uma pessoa feliz.
Você poderá pensar: "Ora, isso é tão óbvio". É óbvio, mas nem por isso é simples. Desejo com toda a sinceridade e força que posso que você seja feliz. Não vou dizer o que quero que faças, apenas o que não deves fazer, dentro do que seja possível a uma mãe alertar seu filho ao longo de sua vida. Também estarei aqui para responder às suas dúvidas (que hoje são sobre os porquês das coisas simples do mundo, do tamanho de sua vidinha querida e ingênua, ainda com cheiro de leite e talco; mas que logo mais ganhará cores e impressões muito, muito mais fortes e, em alguns momentos, sombras).  Também sempre estarei aqui para ouvir, ouvir muito, alguma indignação (espero que as tenha, apatia é veneno em doses homeopáticas); para te abraçar... Para acenar (por mais que a vontade será a de que ficasse).
Farei tudo, tudo que puder para que sejas realmente uma pessoa feliz, seja do jeito que for, com quem for, por que motivos e causas for, por que desejos e escolhas... Seja por que caminhos trilhar. Hoje, pensando em você, e na incrível diferença que fazes em minha vida desde o primeiro minuto, é que entendi. Entendi que, realmente, temos poucas, mas importantes coisas para ensinar aos filhos. Entendi que inúmeras sejam as vezes em que julguemos errados os nossos pais, está tudo em seu lugar. A morada da felicidade somos nós mesmos e é apenas isso que quero conseguir te ensinar.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

A conjugação

[Just push play = Bitter Sweet Symphony - The Verve]


COISA DE TEMPO - E chega um dia que aquilo que você fingia ter acabado, volta. E você sente no peito que tempo é algo realmente-meramente-relativo.
Que tempo é mania de classificar e que sentimento fica ali, na carne, na história, na caixa de quinquilharias – lembrança não é morta.

COISA DE LEMBRAR - Lembrança é indicativo – tem algo que está ali lembra? Lembrança é índice, com eterna pretensão de voltar a ser conteúdo. Lembrança não quer ser só catálogo, quer ser reportagem viva. E amizade quando vira lembrança é assim mesmo, até porque, segue sendo amizade.

TEMPO DE LEMBRANÇAS - E o bom é que o tempo, tão relativo, serve pra dar tempo de arrumarmos nossos sentimentos. É aquela coisa de dar uma classificada e poder dizer que o tempo cura tudo, tem remédio pra tudo, tem solução e ajeita qualquer coisa. Nada disso, na verdade é a gente que vai decidindo o que quer fazer com toda a quinquilharia.

TEMPO DE VIVER - Dói um pouquinho mais, mas sempre concordei com Sartre. A coisa é com a gente mesmo. É muito bom poder abrir antigas portas que sempre estiveram ali porque guardavam em si a possibilidade de serem, justamente, reabertas.

O VERBO AMIZADE - Você parece uma criança, se comporta assim bem de cantinho. Espia pela fechadura, experimenta tocar a maçaneta. Encosta o ouvido e tenta decifrar aquele idioma por trás dela. Você lembra da voz, sente toda a doçura  confortante e lembra daqueles longos papos, confidenciais e sonhadores. Mas não entende mais o vocabulário, afinal, suas gramáticas e idiomas mudaram e cada qual foi falar a sua língua.
Ainda assim, as lembranças te dão um sentimento ancestral, das coisas que permanecem. E confiando piamente nesse sentimento tal qual uma criança, você se move com a decisão de um adulto e, finalmente abre a porta. “Será que ainda sabemos ser amigas?” É tempo de conjugar...

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A hora do café



É hora de breve e furtiva contemplação roubada do tempo urbano – os carros, o semáforo, o passado, os planos. 
Entre o querer e o dever, ela está ali. Uma hora que é contada em poucos minutos. Um quarto do relógio apenas, talvez menos...
O pão com queijo quente, o café preto passado. Ali está entre o querer sonhar no calor das cobertas  e o dever de trabalhar por um dia mais. Entre o bocejo e a lembrança. Entre o gole quente e a agenda cheia, o breve conforto esperado. Reminiscências da noite, esperanças do dia.