
[just push play = Ouro de Tolo - Raul Seixas]
A imagem é de um quadro do pintor Chagall (magnífico como um poeta dascores...). A poesia que segue não é de minha autoria. Foi escrita em 1973, pelo meu querido pai, Paulo Cézar Tiellet (1957- 2003). Mas é estranho, ou esperado, que me faça sentir saudade do que eu nem se quer vivi. Descobri essa e outras poetices em meio às caixas que ficaram como herança. Escrita há muito tempo, nos dá notícia de que há décadas já estavam a se desesperar certos corações rebeldes e revolucionários... Leiam, depois continuamos...
Manifesto
A Academia já não existe,
Morrem as artes, as ciências, a Filosofia.
Morre a crítica, a discussão.
Morrem as conversas de cafés,
Morre o interesse de todos:
Do povo, dos sábios, dos estudiosos, dos jovens e velhos.
Já não existem os grupos e as correntes,
Os aplausos e as vaias,
O manifesto e as revoluções.
As tendências não explodem: são pré-concebidas.
Os arroubos líricos,
O entusiasmo avassalador,
Tudo pertence ao passado...
Os poetas são tímidos e mudos,
O saber morre pouco a pouco no seio do Homem.
Não há mais arte que identifique seus anseios,
Porque não há crítica, diálogo...
E o sangue novo e explosivo
Não corre mais nas veias da velha Filosofia.
Não há mais o povo na praça
Sob a tensão de um orador inflamado.
Ou a maquinação subterrânea e germinativa
Da ideologia de uma sociedade.
Nada mais explode,
Nada mais arrebata,
Nada há mais para ser discutido,
Aceito ou recusado,
Parece até que parou o movimento da cultura...
Não se luta mais,
Os ideais morreram.
Não há tomada de posições,
São sempre as mesmas.
O néscio confunde-se com o sábio,
A burguesia aprisiona as mentes
Faz recear o risco jocoso
E o aplauso inflamado.
Existe o medo de falar,
De mostrar o pensamento, de recusar as idéias contrárias.
O espírito do homem está mais calmo,
Ele observa mas não fala.
Contém em si toda a sua força,
Sua vontade de endossar ou recusar.
E isso o mata, pouco a pouco
Deixando seus sentimentos estéreis do Belo.
E as mentalidades são cada vez mais curtas
E são afastadas da Verdade Sublime.
O grande Circo Colorido das Idéias acabou.
O público não mais o invade,
Não mais pede bis.
Tudo é velho e estragado,
O mofo dos tempos encobre o brilho,
Brilho da Verdade.
Os anseios são inoperantes,
Os corações batem mais vagarosos.
E eu,
Que ainda olho tudo do centro do picadeiro,
Sou o último dos palhaços!
E choro,
Lágrimas de saudade e esperança...
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Pois bem, antes de ter lido, de certa forma, já poderia ter feito minhas as palavras que você acabou de ler. Segue, com muita humildade, um texto que escrevi em setembro de 2004:
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Vermelhos de paixão, vermelhos de vergonha
Constatei uma coisa nesses últimos dias que me deixou profundamente triste. Está certo, tudo que me aconteceu nesses dias contribuiu para uma visão apocalíptica de tal relação... Mas me parece de algum fundamento. Elaborei uma tese que não é bem uma tese, mas, vejamos: A esquerda dos dias de hoje comporta-se exatamente como os apaixonados contemporâneos. Antes de apresentar minhas considerações, é bom fazer duas observações importantíssimas!
Considero apaixonados apenas os que estão realmente arrebatados de paixão. Não vale os que só querem se cobrar de um pé-na-bunda, muito menos as que estão querendo gostar dele porque o cara é legalzinho. E estão terminantemente fora aqueles que se dizem apaixonados há anos! Paixão que é paixão, dá forte e passa logo, o que vem depois...Bom, aí é com cada dois.
A segunda observação é sobre a Esquerda. Considero de esquerda aqueles que são contra qualquer tipo de injustiça, que dariam o sangue para mudar o mundo, mesmo que fosse apenas por alguns instantes. Sim, imaginem o Che. É desse tipo de Esquerda que estou falando. Esqueçam os que usam camiseta sem saber quem é mesmo esse da boina? É o Bono Vox?”. Cortem da lista também aquele bando de burgueses com o carrão do ano e adesivo de estrela colado no pára-brisa. Os oportunistas também não contam, afinal, agora porque o mundo deu uma leve inclinada para a esquerda, todo mundo se diz, pelo menos, simpatizante. E estão descartados os que se metem em qualquer buchincho com mais de dez pessoas e chamam de “grande manifestação do povo contra ...” Contra o que mesmo? Ah, contra qualquer coisa né? O importante é ser contra...Todos fora.
Então, incinerou todas aquelas figuras que citei? Sobrou muita gente? Sobraram milhões de apaixonados para comprar rosas e bom-bons, financiando a indústria no Dia dos Namorados? Sobrou a grande multidão que derrubaria o presidente e venceria a fome? Eis minha constatação. O mundo está carente, falta paixão à humanidade.
Falta-nos acreditar e continuar acreditando. Falta clareza nas expressões e falta gosto pelo que realmente se gosta. Falta luta pelo que realmente se quer. No primeiro traço de egoísmo, lá se vão, ralo abaixo, os contingentes de apaixonados. Garanto que na primeira crise econômica, o vermelho desbota rapidinho, como tecido vagabundo. O lado esquerdo do peito está cada vez mais apenas isso: uma metáfora esvaziada. Os namoros estão cada vez mais povoados de máscaras. A Esquerda está cada vez mais o que menos queria se tornar: uma piada de si mesma, uma caricatura inócua desenhada por uma mão destra. O coração apaixonado pode ser comprado. Tem de vários tamanhos e de diferentes formas. Basta cantarolar a música pop da estação. Basta dormir na sessão de “Diários de Motocicleta”, afinal, o que conta é que os outros vejam você entrando e saindo do cinema. Basta beijar muito seu namorado naquela balada, afinal, palavras sinceras e um olhar demorado não demonstram que ele fez você gozar. É só pintar o rosto com guache e sair para rua no meio do povo, afinal, a Globo não vai ter tempo para que você explique sua convicção política no Jornal Nacional. O que emociona mesmo é o que enche os olhos, só precisamos das provas. E é apenas isso que temos, cada vez mais as provas concretas, cada vez menos o processo para se chegar a elas. E tudo se desenrola, na mais santa paz, sem a menor vergonha na cara, sem o menor rubor nas faces.