domingo, 15 de abril de 2007

Para assistir nesse outono

[just push play = Sinceramente- Cachorro Grande]





Antes do Amanhecer
(“Before Sunrise”, Richard Linklater)

Esse é aquele tipo de filme que eu simplesmente responderia: gosto porque sim. Mas, vejamos o que possa justificar a escolha de Antes do amanhecer, além do ‘gosto pessoal’. Em linhas gerais o filme é ‘médio’ mas acredito que vale a pena, basicamente, pelo roteiro. A idéia de um encontro com a ‘alma gêmea’, ao acaso, é velha, mas, o diretor foi criativo ao dar seu parecer de como isso poderia vir a acontecer na vida de ‘simples mortais’ sem ser muito irreal, mágico.
Assim, o filme quase nos convence de estar tratando da ‘pura realidade’: duas pessoas comuns, com histórias parecidas com as de qualquer um, com idéias fantasiosas e com uma pretensa esperança, que se disfarça sob uma conduta apropriada. No entanto, por que não experimentar? O.K.! Este, talvez, seja o ponto mais interessante da história: as coisas só aconteceram por que os personagens quiseram e foram adiante, nada de passes de mágica ou planos mirabolantes: o cinema, mais uma vez parece cumprir seu papel de representar a realidade com tons de uma liberdade (previamente organizada) que gostaríamos de ter.
Nesse sentido a fotografia e a trilha sonora casam perfeitamente com o roteiro, ajudando a passar essa sensação de ‘acaso por acaso’. Paisagens pitorescas de uma cidade ‘média’, nada de clichês como Paris ou New York: apenas Viena. Alguém pensaria em se apaixonar em Viena?! Com certeza não é o cartão postal mais famoso, também não é a história mais romântica de que se tem notícia e isso nos deixa pensar que é possível: é quase real, é cinema, mas de repente... Uma variação interessante de um tema mais do que comum nos faz acreditar, ao menos durante o filme, que, como dizia Vinícius de Morais “A vida é arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

reflexo


[just push play, only = If - Pink Floyd]



*

*

*

neblina, quase para tocar a transparência

sol, translúcido

lúcida

respira

pára

pensa

pensa

pensa

ouve

ouve

escuta?

o coração pulsa

e se...

terça-feira, 10 de abril de 2007

Brincadeira de gente grande

[just push play = Yellow submarine/Octuposus Garden - The Beatles]

As aventuras do Barão de Munchausen

(“The adventures of Baron Munchausen”, 1989, Terry Gilliam)

Acho esse filme interessante pelo seu formato, pela fantasia fantástica, pela ordem dos acontecimentos na narrativa e os efeitos produzidos a partir dessa estruturação. É um filme que pode ser classificado como infantil, mas, para mim, tornou-se bem mais do que um ‘um bom filme para crianças’. O roteiro em si, no meu ponto de vista, já nos traz uma história interessante. Ao que parece, faz até uma certa crítica ao pensamento racionalista na França do século XVIII, à sociedade burguesa da época, à postura do rei frente ao povo, etc. Sabemos que esse (o racionalismo de Descartes e Cia.) é um paradigma que está em
crise e tudo mais. No entanto, não é esse o principal argumento que me leva a escolher As aventuras do Barão de Munchausen como ‘um dos melhores filmes da minha vida’.
As aventuras do Barão trazem em seu formato uma certa ilogicidade que, para mim, é desafiadora. Como pode alguém viajar até a lua de barco? E o rei da lua? Conflito ‘engraçado’ entre a razão e os sentimentos... Sem falar na cena em que o Barão se salva de morrer afogado puxando a si mesmo pelos cabelos. Essas são algumas seqüências características que dão uma idéia de como o filme brinca com as convicções e ‘verdades absolutas’ nas quais estamos acostumados a viver.
Se na ‘vida real’ podemos seguir essas certezas e conduzir nosso destino, é bom esquecer disso para assistir ao filme. No entanto, só com esse paralelo - real x fantástico - é que se chega à ‘graça’ do filme. Ainda assim, além da (des)ordem dos acontecimentos, que desafia uma narrativa linear e previsível, o filme tem uma linha condutora para a história, o que, no entanto não é nenhuma garantia: o desfecho do filme não nos traz uma certeza, uma resposta. Fica uma dúvida.
O Barão existiu? Não existiu? É uma lenda? É imaginação? Não importa, o filme existe para que aproveitemos uma das coisas que melhor o cinema faz: nos proporciona momentos de distração, permite que viajemos, que experimentemos outros tempos e lugares. Essa é a realidade do cinema: representar. Assim como o teatrinho do Barão de Munchausen, logo no início do filme: nos lembra que é representação, mas não sem antes ‘vivermos’ suas aventuras.

domingo, 8 de abril de 2007

A arte de Amar (ou) Amar a Arte (ou) Amar com Arte

[just push play = Something - The Beatles]



Há músicas que acariciam a alma, o coração. Você já sentiu esse carinho? Como se as lâminas de ouro que Gustav Klimt utilizava em suas telas fossem, delicadamente, colocadas sobre nossa pele. Coladas com o calor e o toque. Não é sempre, mas pode acontecer, esse tipo de coisa... Alguma coisa assim, parecida com arte, que tem um pouco de razão e muito do mágico inexplicável. Poetas, artistas, descubram suas rimas, combinem suas cores... Alguma coisa....

sábado, 7 de abril de 2007

HERANÇAS


[just push play = Ouro de Tolo - Raul Seixas]


A imagem é de um quadro do pintor Chagall (magnífico como um poeta dascores...). A poesia que segue não é de minha autoria. Foi escrita em 1973, pelo meu querido pai, Paulo Cézar Tiellet (1957- 2003). Mas é estranho, ou esperado, que me faça sentir saudade do que eu nem se quer vivi. Descobri essa e outras poetices em meio às caixas que ficaram como herança. Escrita há muito tempo, nos dá notícia de que há décadas já estavam a se desesperar certos corações rebeldes e revolucionários... Leiam, depois continuamos...

Manifesto
A Academia já não existe,
Morrem as artes, as ciências, a Filosofia.
Morre a crítica, a discussão.
Morrem as conversas de cafés,
Morre o interesse de todos:
Do povo, dos sábios, dos estudiosos, dos jovens e velhos.

Já não existem os grupos e as correntes,
Os aplausos e as vaias,
O manifesto e as revoluções.
As tendências não explodem: são pré-concebidas.
Os arroubos líricos,
O entusiasmo avassalador,
Tudo pertence ao passado...

Os poetas são tímidos e mudos,
O saber morre pouco a pouco no seio do Homem.
Não há mais arte que identifique seus anseios,
Porque não há crítica, diálogo...
E o sangue novo e explosivo
Não corre mais nas veias da velha Filosofia.

Não há mais o povo na praça
Sob a tensão de um orador inflamado.
Ou a maquinação subterrânea e germinativa
Da ideologia de uma sociedade.

Nada mais explode,
Nada mais arrebata,
Nada há mais para ser discutido,
Aceito ou recusado,
Parece até que parou o movimento da cultura...

Não se luta mais,
Os ideais morreram.
Não há tomada de posições,
São sempre as mesmas.

O néscio confunde-se com o sábio,
A burguesia aprisiona as mentes
Faz recear o risco jocoso
E o aplauso inflamado.
Existe o medo de falar,
De mostrar o pensamento, de recusar as idéias contrárias.

O espírito do homem está mais calmo,
Ele observa mas não fala.
Contém em si toda a sua força,
Sua vontade de endossar ou recusar.
E isso o mata, pouco a pouco
Deixando seus sentimentos estéreis do Belo.

E as mentalidades são cada vez mais curtas
E são afastadas da Verdade Sublime.

O grande Circo Colorido das Idéias acabou.
O público não mais o invade,
Não mais pede bis.
Tudo é velho e estragado,
O mofo dos tempos encobre o brilho,
Brilho da Verdade.
Os anseios são inoperantes,
Os corações batem mais vagarosos.

E eu,
Que ainda olho tudo do centro do picadeiro,
Sou o último dos palhaços!

E choro,
Lágrimas de saudade e esperança...




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Pois bem, antes de ter lido, de certa forma, já poderia ter feito minhas as palavras que você acabou de ler. Segue, com muita humildade, um texto que escrevi em setembro de 2004:



¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

Vermelhos de paixão, vermelhos de vergonha
Constatei uma coisa nesses últimos dias que me deixou profundamente triste. Está certo, tudo que me aconteceu nesses dias contribuiu para uma visão apocalíptica de tal relação... Mas me parece de algum fundamento. Elaborei uma tese que não é bem uma tese, mas, vejamos: A esquerda dos dias de hoje comporta-se exatamente como os apaixonados contemporâneos. Antes de apresentar minhas considerações, é bom fazer duas observações importantíssimas!
Considero apaixonados apenas os que estão realmente arrebatados de paixão. Não vale os que só querem se cobrar de um pé-na-bunda, muito menos as que estão querendo gostar dele porque o cara é legalzinho. E estão terminantemente fora aqueles que se dizem apaixonados há anos! Paixão que é paixão, dá forte e passa logo, o que vem depois...Bom, aí é com cada dois.
A segunda observação é sobre a Esquerda. Considero de esquerda aqueles que são contra qualquer tipo de injustiça, que dariam o sangue para mudar o mundo, mesmo que fosse apenas por alguns instantes. Sim, imaginem o Che. É desse tipo de Esquerda que estou falando. Esqueçam os que usam camiseta sem saber quem é mesmo esse da boina? É o Bono Vox?”. Cortem da lista também aquele bando de burgueses com o carrão do ano e adesivo de estrela colado no pára-brisa. Os oportunistas também não contam, afinal, agora porque o mundo deu uma leve inclinada para a esquerda, todo mundo se diz, pelo menos, simpatizante. E estão descartados os que se metem em qualquer buchincho com mais de dez pessoas e chamam de “grande manifestação do povo contra ...” Contra o que mesmo? Ah, contra qualquer coisa né? O importante é ser contra...Todos fora.
Então, incinerou todas aquelas figuras que citei? Sobrou muita gente? Sobraram milhões de apaixonados para comprar rosas e bom-bons, financiando a indústria no Dia dos Namorados? Sobrou a grande multidão que derrubaria o presidente e venceria a fome? Eis minha constatação. O mundo está carente, falta paixão à humanidade.
Falta-nos acreditar e continuar acreditando. Falta clareza nas expressões e falta gosto pelo que realmente se gosta. Falta luta pelo que realmente se quer. No primeiro traço de egoísmo, lá se vão, ralo abaixo, os contingentes de apaixonados. Garanto que na primeira crise econômica, o vermelho desbota rapidinho, como tecido vagabundo. O lado esquerdo do peito está cada vez mais apenas isso: uma metáfora esvaziada. Os namoros estão cada vez mais povoados de máscaras. A Esquerda está cada vez mais o que menos queria se tornar: uma piada de si mesma, uma caricatura inócua desenhada por uma mão destra. O coração apaixonado pode ser comprado. Tem de vários tamanhos e de diferentes formas. Basta cantarolar a música pop da estação. Basta dormir na sessão de “Diários de Motocicleta”, afinal, o que conta é que os outros vejam você entrando e saindo do cinema. Basta beijar muito seu namorado naquela balada, afinal, palavras sinceras e um olhar demorado não demonstram que ele fez você gozar. É só pintar o rosto com guache e sair para rua no meio do povo, afinal, a Globo não vai ter tempo para que você explique sua convicção política no Jornal Nacional. O que emociona mesmo é o que enche os olhos, só precisamos das provas. E é apenas isso que temos, cada vez mais as provas concretas, cada vez menos o processo para se chegar a elas. E tudo se desenrola, na mais santa paz, sem a menor vergonha na cara, sem o menor rubor nas faces.


terça-feira, 3 de abril de 2007

A inacreditável novela de Miss J. - UM CAPÍTULO

[just push play = Pink Floyd, Wish You Were Here]
A senhorita Jane levava uma vida não como outra qualquer, mas como a que ela gostaria exatamente de levar. Ou não tão exatamente.
Acontece que Miss. J. considerava um certo charme blasé nas pequenas imperfeições de sua existência.
Uma das passagens interessantes dessa novela é o capítulo mais recente acerca do indelével amor que (em uma certa noite festiva) arrombou, raptou, assolou e assombrou o belo coração de
J.
Como todas as histórias quase-perfeitas de que ela gostava, a sua própria também tinha, sim, o infortúnio de uma grande-paixão-mal-correspondida (ou mal resolvida?!). Mas, como já observei, para J., as imperfeições compunham muito bem o quadro do belo de sua vida, e, desse amor ela também gostava.
Então, já que tivera sofrido na mesma proporção das inúmera vezes que sentira-se a pessoa mais feliz do mundo por conta de tal amor... Abriu a caixa de suas lembranças, respirou fundo, leu a última carta.
Acompanhem apenas um pequeno trecho transcrito da carta, para que J. não core frente a tantos internautas que possam meter o bedelho em sua história. Dizia assim:

"É muito cômodo acreditar em destino. Há um
tempo atrás você, toda linda de longo e salto alto, escolheu dar um convite para
um completo desconhecido de chinelo e camisa da Seleção, e tudo que nós vivemos
foi conseqüência dessa sua escolha. O futuro nos pertence e resta saber o que
vamos fazer com ele. Guardar numa caixa de sapatos? Você escolhe!" (Assina Sr. Dog)
Nossa heroína dormiu pensando em um certo vira-latas. Acordou e (é bom destacar que o acaso, as coincidências e imprevistos são atores protagonistas dessa trama!) abriu sua caixa de e-mails. Não é que lá estava a correspondência quase surreal para o que ela havia pensado na noite anterior?!
Sim, sim, sim, Miss J. , nesses momentos, chegava a acreditar que existissem almas não gêmeas, mas, estreitamente conectadas para além de celulares, orkut ou outras tecnologias menos desenvolvidas que o simbólico coração.
Exatamente!
Lá estava aquela mensagem, escrita e enviada pelo infame cavaleiro a pé, Dog. Como moça bem educada que era, teve Miss Jane de ser sincera consigo mesma e responder a correspondência à altura - à altura da correspondência incompleta de seu amor mas que ainda assim completava o espaço exitente para o imperfeito em sua vida.

domingo, 1 de abril de 2007

clichê para uma época sem graça

[just push play = Engenheiros do Hawaii - Outras Freqüências]


Lá se vão alguns minutos já do dia 2 de abril, e aqui estou eu, como tantos (tenho certeza) a esperar esses minutos silenciosos da noite ganharem o tempo, vencerem as estrelas. Que a madrugada se realize e amanhã teremos, sim, um outro novo dia.
Fazer o que? Ler um livro.
Em mãos, “A última transmissão”, coletânea de excelentes textos jornalísticos de Greil Marcus. Presente de um estimado mestre.
Começo a reler a primeira reportagem, onde Marcus resenha, com todo aquele estilo New Journalism dos bons e velhos “jornalistas de rock” (quando existiam ainda) o álbum Let it Bleed (clássico dos Stones). Ele fala do contexto, ou seja, o fim dos coloridos e psicodélicos anos 60. E do início dos anos 70, a deprê pós-LSD que deu outras cores ao rock and roll.
Aí me pergunto: E nós?!
E nós, pretensos escritores, cronistas ou jornalistas desses infames anos 2 mil... Sobre o que escreveríamos?
Eis a questão que me serve de companhia pela vida e nesta noite em especial...
Se ele, Marcus, falava do fim dos 60, assim como Lester Bangs também o fez, do que nós falaremos? Sobre a música, por exemplo.
Vocês já pensaram nisso? Alguém atualmente é marco de alguma coisa? Não podemos nem se quer lamentar o final de alguma coisa. Porque se você faz isso, está sendo muito descrente e pessimista, e, a moda, ainda, é ser cool. É ser feliz e proativo.
Ok. Aí, o negócio é não pensar pequeno, não ser saudosista ou nostálgico e encarar nosso próprio tempo, com todas as agruras e caos que se apresentam. Tudo bem, vamos lá. Avante companheiros, mas não me peçam para sorrir. Não temos muito a comemorar, a riqueza que pode existir na diversidade (da cultura, por exemplo) sabemos que acaba sendo simplificada, homogeneizada, estereotipada. Quero a originalidade, a surpresa, a descoberta, o gosto e as cores.
Vamos lá. Sabe-se lá para onde. Mas continuemos... Escrevendo, perguntando, refletindo.